Primeira etapa de avaliação e seleção do Programa Itaú Social UNICEF é concluída e avaliadores contam um pouco do processo

“Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”

Chico Science

Inovador ao adotar um modelo de participação formativo, o Programa Itaú Social UNICEF dá um novo passo em sua caminhada: a conclusão da 1ª etapa do processo de avaliação e seleção. Após a entrega dos materiais produzidos e dos planos de intervenção elaborados durante o percurso formativo, encerrado em 31 de janeiro, 687 organizações da sociedade civil (OSCs) foram avaliadas por profissionais de diferentes áreas do conhecimento, indicados pelos organizadores do Programa, com base em critérios técnicos e de vulnerabilidades socioeducacionais.

Nesta etapa, 138 avaliadores(as) – educadores e educadoras de diversas regiões, origens, perfis e experiências profissionais – analisaram as OSCs a partir de diretrizes propostas pelos três eixos do Programa: desenvolvimento institucional; desenvolvimento integral de crianças e adolescentes; e articulação no território. Alguns desses avaliadores também desempenharam o importante papel de mediadores durante o percurso formativo e contam que, durante o processo de avaliação, perceberam que as OSCs realmente aproveitaram o percurso para refletir e rever suas práticas, e que essa autoanálise está refletida nos planos de intervenção que apresentaram.

Para compreender mais sobre a etapa de avaliação e seleção, conversamos com três avaliadores que atuam em organizações que participaram anteriormente do Prêmio Itaú-UNICEF e foram finalistas. Eles contam, ainda, como essa experiência contribuiu para a análise das OSCs sob uma perspectiva mais humanizada e de aprendizado. 

O papel do avaliador ajuda na caminhada

Bira Azevedo

Bira Azevedo, coordenador de Arte-Educação com licenciatura em Teatro, foi um dos avaliadores da região Nordeste e tem propriedade para falar sobre as diretrizes do Programa Itaú Social UNICEF, pois da infância até a vida adulta teve contato com o Prêmio Itaú-UNICEF, que deu origem ao Programa: quando criança foi atendido por uma OSC semifinalista e também já foi mestre de cerimônia e avaliador do Prêmio.

“A Casa do Sol, localizada no bairro Cajazeiras, periferia de Salvador (BA), me mostrou o mundo, o teatro, a vivência de estudante e de professor. Ali, tive a oportunidade de aplicar o que aprendi. E também pude entender a importância que participar da seleção de um Prêmio tem para a comunidade e para o fortalecimento do trabalho que fazemos em determinada região. Pessoalmente, participar em várias frentes do Prêmio foi fundamental para compreender a educação integral”.

Para ele, as histórias se misturam para depois se transformarem. “Eu saí de dentro de um projeto que foi premiado e passei a ser um acompanhador e consultor, fortalecendo novas organizações premiadas como também auxiliando na aplicação, nas práticas e no desenvolvimento integral dos planos. Agora, como avaliador, vejo que a mudança para Programa propõe uma mudança de lógica tanto das suas diretrizes quanto do papel de quem avalia. Antes, o nosso papel era identificar entre os projetos quais tinham mais ‘excelência’, melhor desenvolvimento e que mais inspiravam. Agora, temos um processo de fortalecer as práticas buscando projetos que tenham a capacidade de reconhecer onde pode ser qualificado e potencializar a prática que já está sendo feita”.

Após ser avaliador de 15 organizações, Bira pontua os resultados que identificou a partir do percurso formativo, onde também foi mediador. “Todas as OSCs participantes têm a oportunidade de aprender com foco na qualificação e no fortalecimento, mas a inclusão dos marcadores sociais propostos pelo percurso é um elemento relevante para elas trazerem para os seus cotidianos, práticas e territórios. Antes, os projetos indicavam o que a organização faz, como faz e como quer fazer, sem necessariamente refletir como poderia aprimorar e qualificar internamente o seu fazer. O plano de intervenção promove mudanças internas na organização, no território e fortalece a relação dela com o território e com os parceiros. Para promover a mudança social é necessário que as próprias OSCs sejam coerentes com o fazer”.

Imersão e olhar distanciado para acertar o passo

Thiago Cavalli Azambuja

O avaliador Thiago Cavalli, fundador da Casa do Rio localizada em Careiro (AM), considera que os aprendizados do percurso formativo, grande diferencial do Programa Itaú Social UNICEF, contribuíram para a etapa de avaliação e seleção. Para ele, mais do que reconhecer um projeto, o momento propôs uma imersão interna – para si e para a comunidade – e um olhar distanciado. “Permite avaliar o seu trabalho e o seu desenvolvimento institucional, identificar o que você tem promovido para o desenvolvimento territorial a partir da questão da diversidade e de valorização das identidades culturais e sociais, por exemplo. Há aprendizagem, reavaliação e proposta de melhorias dentro do que você já faz. É um olhar distanciado para, em seguida, se fortalecer com a possibilidade de ter um pensamento muito mais integrado com a realidade local”, explica Thiago, que foi avaliador de 10 OSCs da região Norte.

Graduado em Comunicação e Artes, Thiago atua em projetos que visam o fortalecimento da governança local, a conservação da biodiversidade e a autonomia das populações da Amazônia. Para ele, o aspecto do desenvolvimento integral das crianças e dos adolescentes deve ser olhado com atenção pelas organizações. “Quando você olha para a diversidade, o território e suas questões, você percebe como esses pontos podem influenciar no desenvolvimento. É urgente trazer esses elementos para a formação dessas crianças e adolescentes”, pontua.

Thiago percebeu que algumas organizações fizeram um mergulho em seus territórios, histórias, instituições, metodologias e pedagogias para trazer em seus planos de intervenção um olhar muito mais aprofundado para as realidades e para as dificuldades encontradas. Entretanto, o trabalho de avaliador também permitiu identificar a trajetória que outras organizações ainda precisam trilhar. “Uma parte das instituições ainda não conseguiu olhar para isso, para si mesmas; não conseguiu absorver o que o Programa está propondo com relação à diversidade, ao desenvolvimento territorial e institucional. Para elas, eu sugiro participar das próximas edições do Programa e do percurso formativo, e sempre que possível buscar o suporte das equipes disponíveis, requisitar mais informações, formações e orientações, pois ao final de todo o processo, esse aprendizado será avaliado”, recomenda.

Assim como Thiago, Bira também acredita que esse rico mergulho que o percurso propõe se traduz em uma escuta profunda e qualificada de toda a comunidade que está em volta da organização, seu entorno e sua história. “É um convite para que os educandos, jovens e crianças, familiares, educadores, equipes, parceiros, financiadores e demais atores do território sejam ouvidos. A partir daí, dá para perceber o que está sendo feito, perceber de um jeito mais adequado a estrada, e ajustar o passo que será dado”, pontua. “O percurso é um mapa que vai destacando esse conjunto de elementos que compõem a atuação de uma organização”.

Igor Silva

Quem também lança novos olhares para esta primeira etapa de avaliação e seleção do Programa Itaú Social UNICEF é o bacharel em Serviço Social Igor Silva, coordenador-geral do Instituto Maná do Céu para Os Povos, OSC que também participou do Prêmio Itaú-UNICEF e foi finalista, e que agora atuou como avaliador de 10 OSCs da região Centro-Oeste. “Percebo uma inovação muito grande em todo o processo porque você tira a lógica de competição e traz uma lógica de partilha. Antes, você analisava buscando os melhores. Agora, você prepara as instituições para que elas sejam melhores. Independentemente do tempo de atuação de cada instituição, o Programa permite que as instituições adaptem os seus projetos, participem de processos de aprendizagem e de interação com o seu território. O Prêmio mudou para Programa e as instituições que conseguiram captar essas mudanças e se adaptaram, vão colher os frutos junto com essas mudanças”.

Humanização e aprendizado mútuo

Especializado em educação popular e militante no campo de políticas públicas de crianças e adolescentes desde os 12 anos de idade, Igor Silva também já esteve “do outro lado do balcão” e ressalta que a experiência como participante do Prêmio lhe permitiu ser um avaliador com uma perspectiva diferente e de humanização. “Enquanto avaliado, a gente tende a achar que o avaliador não conhece a sua realidade. Mas quem já foi avaliado e agora tem a missão de avaliar, consegue entender que não é isso; que o avaliador se envolve com as histórias da instituição e sente um pouco daquilo que a instituição está sentindo. Pode-se ter um olhar mais carinhoso para o plano de intervenção, ser mais realista e sensível às mudanças que a Covid-19 provocou, por exemplo”, pontua.

A partir de seu conhecimento e experiência aplicados no papel de avaliador, Igor complementa que trouxe mais humanização para o processo. “Estou falando também como organização que consegue se colocar no lugar da outra. Isso traz uma possibilidade de melhoria, entendimento, avaliação dos planos; e a partir daí também é possível fazer ajustes e alterações em processos de sua própria OSC. Como avaliador, você consegue validar e também olhar para dentro de sua própria instituição”.

Thiago faz coro: “Para quem é avaliador, é um aprendizado imenso e uma sensação de pertencimento, tanto para reconhecer o ecossistema das OSCs da região onde atua – muitas organizações trouxeram inspiração – quanto para reconhecer o valor do que nós fazemos. Deu para perceber que estamos no caminho certo, com condições de propor um futuro institucional muito mais conectado com questões essenciais da atualidade”.

Próximos passos

Na sexta-feira, 23 de abril, serão divulgadas as 80 OSCs selecionadas para a 2ª etapa do processo de avaliação e seleção do Programa Itaú Social UNICEF,  que participarão da avaliação entre pares, ou seja, vão desempenhar o papel de avaliadoras de uma organização que atua em uma região brasileira diferente da sua.

Como parte deste processo, uma formação sobre a avaliação entre pares será realizada no dia 3 de maio; e as entrevistas entre as OSCs serão feitas no período de 10 a 21 de maio.