Primeira edição do Programa Itaú Social UNICEF se consolida como ação de incentivo à educação integral e inclusiva e fortalecimento de Organizações da Sociedade Civil

“O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”

Carlos Drummond de Andrade

Quem acompanhou os 25 anos de experiências e conquistas do Prêmio Itaú-UNICEF assistiu à trajetória de centenas de Organizações da Sociedade Civil (OSCs) dedicadas ao desenvolvimento pleno de crianças e adolescentes. Ao passar por uma transformação alinhada aos novos tempos, a iniciativa se transformou no Programa Itaú Social UNICEF e, em sua primeira edição, já se consolidou como ação de incentivo à educação integral e inclusiva e o fortalecimento de organizações de diferentes regiões do país.

Com objetivo de formar e fomentar as organizações para o aprimoramento de suas práticas e o alcance de resultados de qualidade, o Programa foi lançado em julho de 2020 e contou com a adesão de 1.719 organizações. A ação, de desenho inovador, permitiu a cada uma das OSCs – mais do que fazer parte de um concurso – viver um amplo processo de formação, auto-análise, conhecimento de outras instituições engajadas e com propósitos parecidos, avaliação entre semelhantes e a elaboração de Planos de Intervenção alinhados aos eixos do Programa e voltados para suas respectivas realidades e regiões. 

Em 11 meses desde o seu lançamento, 687 organizações concluíram o Percurso Formativo e 40 foram selecionadas para receber assessoria técnica e fomento financeiro de até R$ 100.000,00.

Transformações e saltos institucionais

Rogério Monaco
Rogério Monaco

Rogério Monaco, gerente de Relações Institucionais do Todos Pela Educação, organização parceira, acompanhou o antecessor Prêmio Itaú-UNICEF e o Programa atual, e pontua: “O incremento de Prêmio para Programa foi um grande salto para a iniciativa, que passou a se preocupar tanto com a formação quanto com o fomento das organizações envolvidas, para além de identificar, estimular e dar visibilidade a projetos realizados”.

Nilce Costa

Quem faz coro no reconhecimento ao novo formato é Nilce Costa, diretora Institucional do Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação), parceiro do Programa. “O mais importante para nós foi a migração de prêmio para o modelo formativo. Ao fomentar e seguir acompanhando, é possível mudar a realidade das organizações e ver a evolução dos Planos e os impactos positivos que eles podem causar nos territórios. É uma virada, é corajoso e desafiador para as instituições”.

Com pano de fundo colaborativo, o Programa contou com este aspecto presente desde o Percurso Formativo, primeira etapa do Programa, passando pela elaboração dos Planos de Intervenção, até as etapas de avaliação e seleção, sobretudo na avaliação entre pares. Letícia Moreira, coordenadora do Programa pelo Cenpec Educação, explica que a proposta, desde o início, era de que todas as fases contassem com a participação de várias pessoas das OSCs. 

Letícia Moreira

“Convidamos diferentes pessoas para participar. Queríamos escutar o território, a família, a comunidade, as crianças e os(as) adolescentes, para criar um olhar coletivo. A construção do Percurso Formativo e do próprio Plano de Intervenção é colaborativa dentro das organizações. Para além disso, quando criamos os grupos de formação, as OSCs dialogaram entre si. Ou seja, mesmo em um processo de competição, o clima de colaboração entre as OSCs se fez presente. No fim das contas, o fato de o Plano estar bom ou não, dependia muito do que elas conseguiam olhar e refletir sobre suas respectivas realidades”, conta Letícia. 

Fernanda Andrade, gestora do Programa no Itaú Social, destaca que o Programa permite às organizações terem espaços para refletir sobre suas práticas. “A formação que propomos no Programa foi um momento desafiador para as OSCs. O Programa propôs parar um pouco, pausar o cotidiano, refletir qual sua função social, missão, contribuição, interferências junto a outros interlocutores, e pensar o Plano de Intervenção para além do recurso financeiro”.

Juliana Sartori

No Programa, ao invés da inscrição de um projeto, a organização deveria construir e apresentar um Plano de Intervenção que apresentasse as premissas do Programa. “O Percurso Formativo ofereceu ferramentas e teve o objetivo de fornecer reflexões vinculadas a essas premissas. Já a avaliação entre pares permitiu às organizações observarem como se relacionam, se vinculam com outros atores, quais princípios e práticas priorizam, e como agem em seu entorno. Não só fazer um Plano, mas trabalhar um Plano que fizesse sentido de acordo com o seu contexto, além de atender outras pessoas da comunidade foi fundamental”, afirma Juliana Sartori, gerente de Projetos Educacionais do UNICEF.

Olhares atentos e mãos dadas

E se a proposta do Programa é traduzida em um convite às organizações para olharem seus Planos, realidades, estruturas e territórios por diferentes ângulos, ele também traz em sua dinâmica os múltiplos olhares advindos de seus parceiros institucionais, técnicos e profissionais envolvidos. Da sinergia de causas e em virtude disso, a longeva parceria entre o Canal Futura e o Itaú Social trouxe para o Programa o olhar cuidadoso e atento do Futura. Bia Lima, da Coordenação de Desenvolvimento Institucional, conta que o Canal acompanhou todas as etapas, e enaltece o compromisso com a educação integral, evidenciado em sua estratégia. Para ela, este é o grande compromisso do Programa.

“Eu destaco o Percurso Formativo, que apoiou as OSCs em todas as etapas por meio de formação e devolutivas visando o fortalecimento das mesmas; e o foco no reforço da educação integral via formação das OSCs”, conta Bia Lima. “Pude acompanhar nesta etapa final o resultado da avaliação entre pares e perceber a importância que produz nas organizações: conhecer diferentes realidades; o efeito que o distanciamento da sua realidade possibilita identificar as mesmas dores, o que causa um sentimento de pertença e, ao mesmo tempo, instiga o olhar para voltar a sua realidade da instituição com um estranhamento e a gana para reconstruir”

Edineide Almeida

Edineide Almeida, assessora da Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação), ressalta a importância da sinergia entre as OSCs e suas regiões. “Pudemos perceber o tanto que a mobilização social traz mudanças significativas para essas comunidades, que vivem situações de vulnerabilidade. O Programa é fundamental e de grande importância principalmente se considerarmos o momento de pandemia que estamos vivendo. Outro ponto que nos chama a atenção é a proximidade e os saberes sobre o local em que eles atuam. Esses saberes precisam ser valorizados. É importante saber o que ocorre em seus próprios territórios e não em outros centros. E, por outro lado, percebemos que as OSCs se sentem motivadas porque elas precisam de qualificação para realizar as ações e implementar os Planos, e o Programa contribui para que eles utilizem esses recursos e apliquem o Plano de forma mais assertiva”.

Caminhos que levam para o Norte

Com o intuito de garantir a equidade, as vagas destinadas às 40 OSCs que vão receber assessoria técnica e fomento financeiro foram distribuídas por região. Foram selecionadas 12 organizações do Norte, 12 do Nordeste e oito do Centro-Oeste, que são regiões prioritárias para o Programa devido aos critérios de vulnerabilidades socioeconômicas e educacionais, e mais quatro OSCs do Sul e outras quatro do Sudeste. O feito é motivo de comemoração pelos profissionais envolvidos no Programa. Meiry Coelho, uma das integrantes da equipe técnica de apoio do Programa, é de Manaus (AM) e acompanhou OSCs da região Norte em algumas etapas. Ela é uma das que celebra a oportunidade.

Meiry Coelho

“Essa divisão do percentual por região levou em consideração a histórica invisibilidade e dificuldade de acesso às agências de fomento e apoios financeiros, e as dificuldades impostas pelos territórios, principalmente pelas três regiões: Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Historicamente, os programas de financiamento e fomento sempre estiveram mais voltados para entidades e projetos do Sul e Sudeste do país. As organizações do Norte enfrentam muitas adversidades em seus territórios, sobretudo durante a pandemia: falta de acesso a recursos, programas assistenciais que normalmente são interrompidos, problemas sérios de acessibilidade, entre outros”, pontua Meiry.

Thaís Righetto

Thaís Speranza Righetto, coordenadora de projetos do Consed, considera um marco: “Percebemos o quanto são desiguais o acesso à informação em algumas regiões, especialmente a Norte, e no que diz respeito à acessibilidade, formação de profissionais e recursos. Dar oportunidades às organizações do Norte foi um diferencial e um destaque louvável”. “A sensibilidade do Programa ao olhar para a região Norte merece o nosso reconhecimento, pois são lugares que não têm as mesmas oportunidades que outras regiões do país”, completa sua colega, Nilce.

Comitê Final de Avaliação e Seleção

Para Bia Lima, do Futura, a experiência de participar do Comitê Final lhe causou duas sensações que há muito não sentia: “retorno a uma prática que desenvolvi no início da minha carreira, há 20 anos, de apoiar, formar e selecionar OSCs e, também, a importância da construção coletiva que ocorreu no grupo da região Norte. A discussão e avaliação das organizações foi um espaço de reflexão e aprendizado sobre diversidade e inclusão, sustentabilidade institucional, financeira e pedagógica, e também sobre a relevância da articulação com o sistema de garantia de direitos e com o território”.

Quem também destaca a oportunidade do fazer coletivo é Rogério Monaco, do Todos Pela Educação, que detalha como se deu a dinâmica do Comitê Final. “Cada participante recebeu até seis organizações para avaliar. Em um processo muito interessante, pensado para reduzir possíveis vieses, cada organização teve um segundo avaliador de forma que, para cada grupo de seis OSCs, fossem alocados pelo menos quatro avaliadores diferentes. Em um processo estruturado de trocas, escutas e consensos, nós chegamos à seleção daquelas que, para nossa região, acabaram sendo as selecionadas. Mas, como disse antes, eram todas merecedoras”.

Planos de Intervenção exequíveis

No que se refere aos Planos de Intervenção apresentados pelas OSCs, os principais elementos observados pelos avaliadores foram a capacidade de aplicar os  recursos de forma alinhada com os objetivos das ações propostas e a conexão com as realidades de cada organização e suas respectivas regiões. “Em algumas situações, as organizações fazem um diagnóstico e na hora de propor as ações nem sempre têm conexão com a realidade. Em alguns projetos, conseguimos ver que houve uma evolução e as OSCs conseguiram trazer propostas com esse alinhamento entre o diagnóstico e a execução do Plano. Então, é um avanço”, afirma Nilce Costa, do Consed.

Considerando a maneira como o Programa desenvolveu sua metodologia e pedagogia, Fernanda Andrade destaca os critérios fundamentais para o Itaú Social – no que se refere à educação de crianças e adolescentes – nos Planos de Intervenção. “Trabalhamos numa perspectiva bem alinhada junto à outra: desenvolvimento integral e organização. Como aquela atividade pode contribuir para que a criança se desenvolva em todas as suas dimensões. Estimular as organizações que trabalham o esporte, por exemplo, não se atenha somente ao aspecto físico, mas também emocional e intelectual. Como as organizações podem incluir esse olhar já nos momentos de planejamento. Avaliar se aquele trabalho conseguiu atingir os objetivos”.

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